sábado, 26 de janeiro de 2013

O gosto da vingança


Eram 09h30, numa quarta-feira comum, do ano de 1973 e o sinal do Colégio Presidente João Pinheiro toca, era o momento dos alunos retornarem a sala de aula para dar continuidade a suas atividades. Flávia era uma jovem de 17 anos e cursava a ultima série do colegial. Oriunda de uma tradicional família de Uberaba no interior de Minas Gerais, tinha em casa uma educação extremamente formal e rígida, o que era nitidamente expresso em sua personalidade. Quieta, tímida, e sem amigos, a garota não havia se quer dado o primeiro beijo. Tinha por obrigação tirar as melhores notas, e quando isso não acontecia, sofria castigos físicos.
Os pais de Flávia, Sr. Evaldo e Dona Ermelinda, formavam um casal perfeito aos olhos da hipócrita burguesia local, donos de uma Fábrica de papel, e de um harmonioso casamento, escondiam o sadismo atrás de sorrisos, que se estendiam a todos, exceto a filha única do casal.
Naquela manhã no colégio, a garota se dedicou a escrever uma carta a seus pais, contando tudo que sentira; a vontade de mudança, queria ter amigas, beijar um rapaz... Criticava o comportamento tirânico de seus pais, e disse estar disposta a ir morar com sua tia na capital, caso não concordassem com ela.
Ao chegar em casa, deixou a carta sobre a mesa, e foi para seu quarto. Muitas coisas passaram por sua cabeça. Quando descia as escadas, indo para a cozinha, deparou-se com seus pais, sabia que aquele momento poderia não ser fácil, mas esperava a compreensão dos mesmos. O contrário aconteceu, sua mãe lhe pegou pelos cabelos e a fez se ajoelhar diante deles.
_ Eu sabia, sabia que deixa-la estudando naquele antro de perdição daria nisso! Uma filha vagabunda! Vagabunda, como aquelas outras meninas!
_ Mãe, a senhora não tem o direito de falar assim comigo. Disse Flávia chorando. _ Vagabundos são os senhores, que se mostram santos para a sociedade, mas na verdade...
Ermelinda interrompeu o revoltoso discurso da filha com um tapa, que a fez se calar. Nada mais precisava ser dito. Enquanto Evaldo tirava a cinta, para dar uma surra em sua filha, Dona Ermelinda foi fechando as janelas do casarão. É claro, os vizinhos não poderiam ouvir o que se passava.
Já em seu quarto, marcada pelas agressões de seus pais, e repleta de ódio, Flávia se sentia uma inválida, incapaz de demonstrar suas vontades, se via como uma fraca, indigna de viver. Decidiu abdicar da própria vida. Cortaria os pulsos? Uma overdose de calmantes? Chorando  a jovem adormeceu, e quando se deu conta, já era noite. O desejo de morrer não mais persistia, ela queria viver. E teria de fazê-lo longe de seus pais.
Em uma mochila colocou algumas roupas, e saiu de seu quarto, andou bem devagar pelo corredor, com a porta entre aberta, notou que seus pais dormiam.  Vê-los em tamanha paz, lhe deixou ainda mais enfurecida. Estavam tão fragilizados agora, se ela portasse uma faca, poderia muito bem degola-los ali mesmo... Mas não, não tinha coragem pra isso.  Foi até a sala, onde ficava o cofre com as joias da mãe, pegou as de maior valor e saiu. Correu até não mais aguentar, e se sentou sob a marquise de uma loja, quando viu um homem muito bem vestido se aproximar. Por um instante achou que era seu pai, mas logo notou que se tratava de outra pessoa.
_Quem é você? Não quero confusão, por favor, me deixe em paz!
_  Pense em tudo que está deixando para trás! Você acha mesmo que pode ser feliz na rua? Quanto tempo poderá se sustentar com o dinheiro dessas joias?
_ Quem é você? Meu pai te mandou? Como ...
_Não seja tola, seus pais ainda dormem! Não lhe digo meu nome, pois tenho tantos, só lhe confundiria. Mas pense...vai deixar toda sua herança pra trás?
_Herança? Mas meus pais estão vivos e...
_ E nada é definitivo aqui na Terra. Me diga apenas se quer minha ajuda, e o resto resolvo por você.
Ela não entendia o que estava acontecendo ali, não conseguia nem identificar onde estava. Mas aquele homem por algum motivo lhe passava confiança.
_Quero sua ajuda!

O despertador tocava, estava na hora de Flávia ir para o colégio. Acordou tão confusa, a única coisa que lhe comprovava que o dia anterior realmente havia passado, eram as marcas no seu corpo. Suas roupas estavam guardadas e nada de joias.  Ao chegar na cozinha, avistou seus pais. Não disse uma palavra. Só os ouviu dizer, que estavam indo para São Paulo, conversar com o diretor do colégio interno em que ela seria matriculada.
Não havia mais ódio, nem nenhum outro sentimento no coração daquela garota, antes de ir para seu ultimo dia de aula no colégio que seus pais julgavam a causa do seu inaceitável comportamento, ela passou pelo cofre, e as joias estavam lá, foi a garagem, e fez alguns cortes num cabo embaixo do carro, para que o fluido dos freios vazasse lentamente. Não entendia nada de mecânica, mas algo, que não era apenas intuição a guiou.
Na escola, quando o sino chamava os alunos para o intervalo, a diretora da escola convidou Flávia a sua sala, e lhe deu a triste notícia do falecimento de seus pais. Um buraco na estrada, e um problema no freio, os jogaram num barranco e o carro capotou e se incendiou, sem dar oportunidade deles saírem com vida.
A garota órfã foi pra Belo Horizonte, e lá morou com seus tios por alguns meses, até completar a maioridade. Então, vendeu a fabrica que herdara e decidiu deixar todas as lembranças ruins para trás, mudando-se para Argentina.
Exatos seis anos se passavam desde a morte de Senhor Evaldo e Dona Ermelinda, Flávia estava muito feliz, tinha uma nova vida, havia se formado na faculdade, se casado e nunca havia contado do seu passado sofrido para seu marido, com quem já tinha um filho pequeno. Naquela tarde a família se divertiu num parque ecológico, e o pequeno Pietro havia falado ‘’Mamá’’ pela primeira vez.
Ao fim daquele dia tão especial, os três voltavam para casa, o sol já havia se posto e a rodovia estava estranhamente deserta. Pietro que estava na sua cadeirinha no banco de trás, chorava insistentemente. Como seu marido dirigia, Flávia soltou seu sinto, e se virou para trás tentando acalmar a criança fazendo caretas. O choro do menino logo foi substituído por deliciosas gargalhadas, que contagiaram Alberto, que se distraindo da estrada para ver o sorriso de seu filho, perdeu o controle do veículo numa curva que não havia avistado. O Carro capotou várias vezes e Flávia foi arremessada para fora.
Quando acordou, Flávia não sentia suas pernas, e percebeu que seu marido estava desacordado e Pietro chorava, ambos dentro do carro. A jovem notou que um incêndio se iniciava e sem conseguir se locomover, gritava desesperada por socorro.  Da estrada um homem desceu correndo se aproximando de Flávia, que ingenuamente agradecia a Deus pela chegada de ajuda.
_Complacer, mi marido y mi hijo están en el coche! Ayudarles a!
_Flávia, não se lembra de mim?
Então ela pode ver, que se tratava do mesmo homem que lhe apareceu na noite em que fugira de casa, a seis anos atrás.
_Por favor, me tire tudo, menos meu filho! Ofereço-lhe qualquer, qualquer coisa!
_Vejo que nunca deixou de ser tola! Você já me deve!  Há seis anos não lhe disse meu nome, não acredito que agora seja um momento apropriado para formalidades, mas... Meu nome é Lúcifer! E Lúcifer não faz favores de graça.
Ele sorriu e caminhou devagar em direção à estrada. Ela clamava por piedade, seu filho chorava e o fogo consumia o veículo.
Enquanto assistia impotente a morte de tudo que amava, Flávia entendeu que a vingança fede, queima e tem gosto de sangue, seu próprio sangue.
Marlon Maia 04/07/2007 – Adaptado 08/09/2012
(Fotografia retirada do Site Layoutsparks.com )

Um comentário:

  1. Caraca! Eu fui lendo e pensando: gente, já li isso em algum lugar...Será de Pedro Bandeira? rsrs Você e sua soturnidade. rs

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